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Para Professores

PROFESSOR

ENSINANDO COM SABEDORIA

 

O papel do Professor

por Vanilde Gerolim Portillo – Psicóloga Clínica 

 A influência dos pais no desenvolvimento da personalidade da criança é incontestável, já que há tempos vem sendo objeto de discussões, estudos e teorias. Mas o que podemos dizer do papel do professor? Sua influência sobre o desenvolvimento da personalidade do aluno é relevante? A resposta é sim.  O professor exerce função não menos importante do que a dos pais no desenvolvimento da criança.

A criança vai lentamente lutando pela liberdade de sua consciência individual desde a mais tenra infância e, nesta luta, a escola exerce um papel fundamental por ser o primeiro ambiente que a criança encontra fora da família. Neste ambiente é inevitável que os companheiros substituam os irmãos, o professor o pai, a professora a mãe.

O professor deverá estar consciente deste papel e da sua importância. Deverá entender que sua tarefa não é apenas inserir na cabeça das crianças um número crescente de ensinamentos e sim, antes de tudo, exercer certa influência sobre a personalidade, como um todo. A atuação do professor sobre a personalidade da criança é, em alguns casos, mais importante do que as atividades curriculares. Visto desta maneira, o professor é a ponte mais importante da passagem do mundo infantil para o mundo adulto, pois junto com os pais, os professores são responsáveis pelo encorajamento ao crescimento e independência das crianças.

Ouvimos muitas vezes que o adolescente está destinado para o mundo e não para permanecer agarrado a seus pais. Mas como introduzir este jovem no mundo adulto de maneira segura e sem traumas? O professor tem aí o cerne de sua função social, porém como personalidade e não como um mero transmissor de conhecimento. A tarefa é difícil. Por isso o professor deve estar preparado psicologicamente para exercer plenamente suas funções com responsabilidade e harmonia.

Segundo o médico, psicólogo e pensador suíço, Carl Gustav Jung; – “Como personalidade, tem, pois o professor tarefa difícil, porque se não deve exercer a autoridade de modo que subjugue, também precisa apresentar justamente aquela dose de autoridade que compete à pessoa adulta e entendida perante a criança”.[1]

Esta atitude não poderá ser obtida forçosamente, porém deverá vir de modo natural à medida que o professor se comporta de acordo com o que ele se propõe a ensinar. O professor deverá antes de mais nada ser um cidadão que cumpre seus deveres como tal, deverá ser uma pessoa correta e sadia. O bom exemplo é o melhor método de ensino, uma vez que ocorre espontaneamente e inconscientemente, onde a personalidade do professor se sobrepõe ao método adotado. Se o professor estiver psicologicamente sadio e entender que sua função no mundo vai além de simplesmente encher as cabeças das crianças com matérias e mais matérias, certamente iremos ter crianças, jovens e adultos mais saudáveis, ou melhor, vamos ter adultos de verdade, preocupados com si mesmos e com os outros, respeitando-se mutuamente e ao seu meio ambiente.

Neste sentido a educação dos adultos, neste caso a do professor, é que está em jogo. Se os professores se preocupassem com sua própria educação psicológica o benefício seria revertido indiretamente na educação da criança. A educação do adulto referida acima está ligada diretamente ao seu autoconhecimento e este se dá com a análise profunda de seus sentimentos como medos, temores, incertezas, raiva, etc. Não podemos varrer sentimentos que nos perturbem para baixo do tapete, pois cedo ou tarde esta “sujeira” acumulada invadirá nossas vidas nos momentos menos adequados.

 

[1] JUNG, Carl Gustav – O Desenvolvimento da Personalidade, pág. 60.

 

TEORIAS DE APRENDIZAGEM

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Hora de Mudar

 

A leitora Hélida Lima pergunta: “Como sair da comodidade para enfrentar o desconhecido e ter coragem para mudar o rumo da vida?”

por Eugenio Mussak

Este é o primeiro artigo que estou escrevendo em meu apartamento novo. Mudei há uma semana. Fazendo as contas, já mudei de casa mais de 30 vezes. Morei em quatro cidades brasileiras e em três países. Mudei de profissão quatro vezes, de estado civil três vezes. Já tive dezenas de projetos de vida, mudei centenas de vezes de opinião e milhares de vezes de ideia. De mudança eu entendo. Ou acho que entendo…

Descobri, por exemplo, que as pessoas mudam por necessidade ou por desejo. Sentimos necessidade de mudar algo em nossa vida quando as coisas não estão dando certo. Já o desejo está ligado a querer resultados ainda melhores, independentemente de quão bons já sejam os que estamos obtendo. Mudar, portanto, é próprio do ser humano, pois ele sempre tem necessidades e desejos. Será? Vamos analisar algumas contradições que pertencem a esse assunto.

Uma das principais características da nossa sociedade, atualmente, é a crescente velocidade das mudanças. Há tantas, em todas as áreas, que os historiadores estão dizendo que não estamos em um tempo de mudanças, e sim em uma mudança de tempo, como ocorreu na Renascença e na Revolução Industrial. As tecnologias, como o celular e a internet, compõem o principal motor desse fenômeno, mas há outras coisas, como o excesso de informação e a multiplicidade de opções.

Mudar ou não?

Ao contrário do que já foi, hoje são valorizadas as pessoas que mudam. Raul Seixas foi profético quando disse que preferia ser “uma metamorfose ambulante” a “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. É claro que não se cobra de ninguém que seja tão maluco-beleza, mas a estagnação paga pedágio dobrado. Somos estimulados, sim, a ser metamorfoses ambulantes, se não por outro motivo, pelo menos para acompanhar as mudanças do mundo, e estas são cada vez maiores e em velocidade crescente.

Mas somos também paradoxos ambulantes. Explico: há pelo menos duas contradições importantes quando o tema é a mudança. O motivo principal que nos obriga a mudar é a manutenção do status. Eu preciso mudar para continuar sendo competitivo, para manter minha cultura em dia, para ser bem informado como sempre fui, para atender às expectativas das pessoas com quem convivo, para não ser considerado antiquado, adjetivo que nunca me coube. Ou seja, preciso mudar para continuar sendo o mesmo. Esse é o primeiro paradoxo.

O segundo paradoxo é mais agudo: eu sei que preciso mudar, mas bem que preferia deixar como está. Seria tão bom se tudo ficasse quieto, confortável e seguro… Esse sentimento existe porque qualquer mudança pressupõe movimento, gasto de energia, perigo – e são justamente essas as características que a parte mais primitiva de nosso cérebro está programada para evitar. O racional entende que a mudança precisa acontecer, o emocional precisa ser convencido e, mesmo assim, reluta. É duro sair de uma zona de conforto, que é confortável principalmente porque é conhecida.

Você, como eu, já mudou de casa? Quase com certeza sim, então deve se lembrar de que, mesmo que a mudança fosse para um espaço maior, com mais conforto – uma verdadeira conquista de seu projeto de vida –, no dia da mudança, quando o caminhão da transportadora encostou na calçada, o Macunaíma que habita em você se manifestou com seu famoso bordão: “Ai, que preguiça”. 

A realidade é instável

Mas não temos alternativa. Devemos conviver com nossos dois eus interiores – o que quer mudar e o que quer permanecer. Apesar de o assunto ser moderno, ele não é novo. Há mais de 25 séculos viveu, na cidade de Éfeso, na costa da Grécia, um filósofo chamado Heráclito, que, dizem, vivia angustiado com a velocidade das mudanças. Imagine se ele vivesse hoje!

Heráclito teve duas percepções importantes a respeito do tema. A primeira diz respeito ao que ele chamou de “unidade dos opostos”. Segundo o filósofo, absolutamente tudo na vida é composto por fenômenos, valores ou tendências totalmente opostas, mas que se complementam.

Um exemplo: uma estrada tem uma subida e uma descida, mas continua sendo uma estrada só, e não duas. Outro: se alguém diz que um copo de água está meio vazio, enquanto outro afirma que está meio cheio, ambos estão falando sobre o mesmo copo, e não sobre dois. É o mesmo, mas há opiniões opostas a seu respeito. E essas opiniões não são contraditórias, mas complementares, pois o copo está, de fato, meio cheio e meio vazio. A diferença está apenas no ponto de vista.

O que o sábio Heráclito quis dizer com isso é que as oposições são naturais e nem sequer devemos lutar contra elas, pois estaríamos correndo o risco de negar a própria realidade. A lição que tiramos dessa história é que a realidade é instável por conter os opostos, que, por outro lado, são necessários para a construção do todo.

Os opostos geram a instabilidade que provoca o movimento que determina as mudanças. Daí nasce a segunda observação de Heráclito. “Tudo flui”, disse ele. “Você não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”, pois, na segunda vez, o rio não será o mesmo, uma vez que aquela água já se foi e esta é outra. Ponto para Heráclito. Temos que estar preparados para conviver com os opostos e para nos adaptarmos às novas realidades que surgem o tempo todo.

Mas observe como algumas pessoas têm uma incrível dificuldade para lidar com essas duas situações. E acabam pagando um preço alto por não conseguirem entender a instabilidade dos fenômenos e a oposição dos componentes da realidade. Cuidado! Adaptação não é o mesmo que acomodação. O acomodado não muda, o adaptado muda o tempo todo.

Não precisamos ser metamorfoses ambulantes, mas não podemos ter a velha opinião formada, imutável, irremovível, pétrea. Há uma diferença entre “dualidade” e “impasse”. Os opostos de Heráclito compõem dualidade. Dia e noite. Vida e morte. Homem e mulher. Inverno e verão. A dualidade pressupõe o uso de “e”. O impasse vale-se do “ou”. Viveremos tão melhor quanto mais aceitarmos o uso do “e”, que pressupõe soma, não divisão.

Mudanças são boas quando trazem acréscimos para nossa vida. O duro é perceber que ir para outro emprego, acabar com um casamento falido, promover alterações no visual e criar novos hábitos de vida, entre outras, são mudanças que acrescentam. Não significam perdas, e sim ganhos.

O recomeço

O poeta gaúcho Mário Quintana, que este ano estaria completando 100 anos, certa vez escreveu:

Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa

Esse pequeno verso parece fazer referência a uma existência cotidiana sem sobressaltos ou mudanças, rotineira e monótona, apesar de confortável. Trata-se da abertura do poema “Canção do dia de sempre”, que, ao contrário do que possa parecer na primeira impressão, é um alerta sobre o verdadeiro estado geral das coisas – a mudança. Continua ele:

Mas a rosa louca dos ventos
Está presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas.

 

Pois é, esse poema é como a vida de todos nós, que muda quando menos esperamos. Ou que muda porque esperamos que mude. Mas que muda, muda. O que não podemos é ficar distraídos, imaginando que tudo será como sempre foi.

Quando nos debruçamos um pouco sobre a história das mudanças, sempre encontramos seus personagens. Pessoas que promoveram as transformações e que depois foram acompanhadas pelas demais. Os “promotores de mudanças” têm algumas características em comum.

As mudanças podem ser traumáticas ou amigáveis, isso vai depender da relação que construímos com elas. E, é claro, vai depender também da expectativa que temos do seu resultado.

Ninguém gosta de mudar para pior. Ou mudamos por conta própria, e sempre para melhor, ou as mudanças acontecerão à nossa revelia – e, nesse caso, não temos garantia de que será para melhor.

 

Seis características para mudar

 

• INCONFORMISMO: Significa não estar conforme, não concordar com uma situação estabelecida. Os inconformados são os que mais incomodam os outros, mas também são eles que provocam as melhores mudanças.

 

• CORAGEM: Sem esse atributo, ninguém promove mudança. As pessoas, por princípio, resistem a mudanças, pois isso ameaça a situação atual, que, mesmo que não seja a melhor, pelo menos é conhecida.

• PERSISTÊNCIA: Sem persistir, não adianta nem ser corajoso, pois as mudanças dificilmente são estabelecidas de maneira rápida. Sempre é necessário o tempo do entendimento, da assimilação, da aceitação. E o tempo da ação. Haja paciência.

• MÉTODO: Para ir do ponto A ao ponto B é necessária uma estratégia, que é o nome que se dá ao método que será utilizado para cobrir essa distância.

• RELEVÂNCIA: A ideia nova tem que ser relevante, ou seja, tem que ser boa, útil, ética, senão não existe coragem nem persistência que deem jeito. Ninguém quer sair de uma situação e ir para outra pior.

• CRIATIVIDADE: Sair do ponto A é uma coisa, chegar ao ponto B é outra coisa. O A eu já sei qual é, o B precisa ser criado. Sem o poder criativo ninguém vai prestar atenção em seu inconformismo.

Eugenio Mussak é educador e escritor.